Quarta-feira, Maio 18, 2005

As duas faces de uma mesma moeda

Numa altura em que o campeonato português, na recta final pela pole position, está ao rubro e que o Verão se adivinha quente, com os habituais festivais, eis o país ao rubro com mais um acontecimento futebolístico. Após um Euro 2004 que foi premiado pela UEFA como o mais bem organizado de sempre, temos a final da taça UEFA, em Alvalade.
Como se o facto da final ser na "Casa-de-banho" não bastasse, há ainda a coincidência de uma das equipas finalistas ser a equipa da casa.
Aqui existe uma mera coincidência pois os locais escolhidos são escolhidos antes do início das competições.
Mas o facto que me leva a citar este acontecimento deve-se ao simples facto de esta final se realizar quatro dias após o jogo que muito provavelmente decidiu o título nacional.
Sábado, 14 de Maio de 2005, 11 anos depois do 3-6 em Alvalade, a última vitória encarnada no campeonato portugês de futebol, o Benfica defrontava, em casa, o Sporting.
Era, apenas o mais importante derby lisboeta dos últimos anos. o Benfica continuava (e continua, felizmente) na luta pelo título a duas jornadas do fim, em igualdade pontual com o rival.
O ambiente na Luz era tremendamente intimidador para os visitantes, com cerca de 62/63 ,il adeptos da casa contra os restantes, em baixo número, apoiantes rivais. Fazia-se então jus ao "INFERNO DA LUZ".
Durante todo o jogo o ambienteesteve sempre ao rubro. O já largo jejum de 11 anos prevalecia na memória de todos.
O Benfica, como se esperava, lá ganhou JUSTAMENTE. Naquele momento todo o estádio da Luz vibrava. As emoções estavam ao rubro depois de mais um passo de gigante em direção ao título.

Hoje há os que apoiam "Portugal", os que apoiam o Sporting e os que apoiam o CSKA. Eu identifico-me com os últimos. Para mim ser patriota é amar Portugal toda a vida, não apenas numa final europeia de futebol. Isso é apenas para os que vivem apenas do futebol. Nunca irei apoiar um clube, contra minha vontade, apenas por ser português. Um clube de futebol é uma instituição privada, que proporciona divertimento e que não representa o país, representa-se apenas a si. Em primeiro lugar sou Benfiquista, mas não se deve a esse facto o meu apoio ao CSKA. O meu apoio deve-se, sobretudo, devido à arrogância dos adeptos verde-e-brancos e ao ódio que estes demonstram pelo Benfica.
Além disso não tenho que dar explicações sobre escolhas. A democracia permite que sejamos livres de escolher. Eu escolho apoiar o CSKA.
Amo futebol, vibro com o Benfica e com a Selecção PORTUGUESA.

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Este texto foi escrito hoje de manhã.
O jogo já acabou. O CSKA venceu.
Obrigado pela vitória da humildade contra a arrogância.

Quarta-feira, Maio 11, 2005

Aguenta mais três dias coração...

<< Quando o Sporting ganhou o título nacional depois de 18 anos de jejum, o meu filho António, no dia seguinte à consagração dos “lagartos” como campeões, desceu ao pé do Príncipe Real até ao Liceu Passos Manuel envergando, magnífico de estoicismo, a camisola do Benfica, orgulhoso do vermelho com que se cobria, num desafio solitário e romântico à esfusiante praga esverdeada que, na véspera, avançara pela cidade.
Como benfiquista, a vitória do Sporting deixara-me de rastos. Como pai, confesso, senti-me perfeitamente realizado, feliz por ver o meu filho, sem medo de nada nem de ninguém, assumir a sua paixão pelo “Glorioso” SLB, num momento triste para nós e num momento de rara felicidade do velho rival.
Eu não ousaria tanto. O que é prova de que as novas gerações são mais capazes, são melhores do que as velhas gerações.
- Vais assim vestido para a escola? – Perguntei-lhe, a fingir que nem sequer dava grande importância à coisa.
- Claro – Respondeu-me, enquanto de olhar vago e místico comia o pão com manteiga do pequeno-almoço. A empresa não era para menos.
- Vais ser gozado pelos teus colegas “lagartos” – avisei-o com a subtileza possível, porque a última coisa que eu queria era vê-lo soçobrar, ou seja, despir a camisola do Benfica e trocá-la por uma vulgar “T-shirt”.
- Não vou nada. Vou mas é esmagá-los! – Disse-me. Pôs a mochila às costas e abalou, de vermelho, águia ao peito, pela rua abaixo num passo ligeiro.
Depois, horas mais tarde, contou-me tudo o que se passara na escola. Os colegas “lagartos” ficaram mudos quando o viram entrar na sala de aulas. Só a sua presença, só o facto de ter saído à rua equipado à Benfica num dia daqueles, um dia cheio de verdete, tinha conseguido calar a euforia dos novos campeões, na verdade esmagados pelo desaforo de um só individuo, representativo de uma multidão, que num gesto fantástico de coragem e afronta resolvera marcar a gloriosa diferença entre uns e outros, apresentando-se com as cores do maior clube do mundo, como quem diz: “Quero lá saber da vossa festarola porque não há festa maior na vida do que ser do Benfica, mesmo quando o Benfica perde”. Ou, sobretudo, quando o Benfica perde, que é quando temos de gostar mais dele.
O regresso a casa ainda foi mais épico.
- Alguém se meteu contigo na rua?
- Não.
- Estás a mentir-me. Não acredito que não tenhas ouvido umas piadas “lagartas”.
- Juro que não.
- Ninguém te disse nada?
- Só um polícia.
- Um polícia!? Que horror! O que é que se passou?
- Passou um carro da polícia na rua e parou ao meu lado…
- E depois? E depois?
- Um dos polícias abriu a janela, meteu a cabeça de fora e disse-me uma coisa…
- O quê? O que é que ele te disse?
- Disse-me só: “Boa míudo!”.
E, entre vivas ao Benfica e à PSP, fomos almoçar. >>


in " SER BENFIQUISTA "